quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um Conto da Vida Privada

Olá, amigos!



Nesta semana, inspirado nos amigos escritores Álisson Zimermann e Flávia Côrtes, resolvi postar algo diferente. Antes que eu caia na besteira de revelar algum spoiler do livro, resolvi exercitar meu lado contista. O conto que apresento não tem relação com o livro, pois foi algo verídico que aconteceu comigo. A princípio é para ser um conto de humor. Será que consegui o efeito esperado? Leiam e depois comentem o que acharam dele.





Certezas Erradas!



Por Andrés Carreiro Fumega



Lembro-me, como se fosse hoje, de uma história vivida no início de minha fase adulta, lá pelo ano de 1996. Estava eu com dezenove anos e havia pouco tempo que começara minha jornada na universidade. Naqueles tempos não morava na cidade do Rio de Janeiro e utilizava-me dos serviços de um transporte particular para me locomover. Um de meus grandes amigos de juventude, Daniel, também havia passado para a universidade e cursava Geografia. Eu ingressara no curso de Física, e nossos prédios ficavam próximos (apenas uma rua de distância). Para completar, como morávamos na mesma cidade, nós utilizávamos o mesmo transporte para locomoção entre municípios. Geralmente saíamos ao meio-dia de nossos cursos e esperávamos cerca de uma hora para o transporte aparecer. Saía todos os dias do prédio do Centro de Tecnologia e ia até a entrada do Centro de Ciências da Matemática e da Natureza esperar Daniel e posteriormente o transporte.

Num belo dia de céu azul, digno dos melhores pilotos da aeronáutica, me dirigi ao prédio vizinho, como determinava o protocolo de minha rotina. Muitos alunos novos, em péssimos estados, sujos e pitados, devido aos trotes de início de curso, pediam esmolas para os transeuntes ali presentes. Sempre que algum me pedia um trocado, exigia a dança da garrafa (hit existente na época). Este pedido fazia na hora o cidadão desistir de me importunar. Sentado num banco de concreto, observava a porta do CCMN na esperança de rever Daniel. Como se fosse um mestre da arte da invisibilidade, um rapaz trajando vestimentas que lembravam um dândi moderno chamou-me a atenção com sua voz cordial e afetada.

– Olá, tudo bem? – perguntou a estranha criatura quase sussurrando.

– Tudo bem! – disse-lhe olhando de soslaio e posteriormente girando o corpo para que pudesse ter uma visão mais confortável de meu novo interlocutor.

– Sou representante do grupo evangélico da UFRJ e gostaria de convidá-lo para nosso grupo – disse sem cerimônia o religioso rapaz.

Aquilo era algo que eu não esperava de nenhuma forma. Um evangelizador no campus universitário? Não conseguia acreditar no que meus ouvidos captavam. E a condição laica da universidade? Pensei rápido em que dizer ao rapaz e só uma única coisa que me veio à cabeça.

– Não, obrigado. Eu faço física – Foi a única coisa que consegui balbuciar. Física e ateísmo andam meio que juntas.

Imediatamente o rapaz entendeu o recado e educadamente acreditou em minha situação, sem questionamentos, respeitando minha opção “religiosa”. Quando estava para se despedir, eis que surge Daniel, todo meninão e extrovertido (situação totalmente atípica do Daniel que eu conhecia). Com um sorriso amistoso, quase indecente, estendeu a mão para o evangélico, apresentando-se.

– Olá: Daniel! Prazer em conhecê-lo! – o sorriso continuava como se estampado eternamente estivesse na face de Daniel.

– Prazer em conhecê-lo – disse o rapaz evangélico. – Também me chamo Daniel.

– Puxa vida, que legal! – disse meu surpreendente e amistoso amigo – E a greve?

– Parece que acontecerá em poucos dias – disse o evangélico como se fosse um amigo de longa data.

– Pois é, rapaz, o pessoal da geografia só tem falado que a greve começará esta semana.

- O pessoal do meu curso também comenta a mesma coisa.

Enquanto dialogavam descontraidamente, eu observava-os com um sorriso interno, só vendo no que aquilo iria dar. O rapaz se levantou e nos cumprimentou cordialmente. Quando foi embora, eu olhava para Daniel com um sorriso diabolicamente sínico.

– Ai, Ai! – ria e falava ao mesmo tempo – Que cara legal esse seu amigo, Andrés!

O momento tão esperado chegara e ali demonstraria finalmente a situação tosca vivida por meu amigo.

– Daniel, você conhece este cidadão?

– Não! Conheci agora! Por quê?

– Porque eu não o conheço!

– Puxa, como assim?

- O cara apareceu aqui tentando me evangelizar, falando de um tal grupo evangélico da UFRJ! Nunca havia estado antes com esta criatura!

– Não Brinca, rapaz! – o sorriso deu lugar a uma expressão de espanto.

– Pois é! Foi querer ser o bonzão, deu nisso, ô Mané!

– Putz! Eu não acredito nisso. Pensei que o cara era teu amigo e só quis adiantar os trâmites.

– Bem feito!

Um mísero segundo se passou e caímos na gargalhada. Acredito que nunca mais meu bom e velho amigo Daniel fez isto novamente sem ao menos verificar a confiabilidade de suas certezas. Passado o susto, o cotidiano voltou ao normal e o carro de aluguel chegou para nos conduzir novamente para nossas casas.



4 comentários:

itto disse...

haha que manda ele ser apressado e ir logo cumprimentando.Ainda bem que foi só uma conversa amigável,sorte que ele num chegou com aquelas brincadeiras sem graça.Aí sim seria constrangedor.

schulai disse...

Andrés eu tenho muito o jeito desse seu amigo Daniel e faço esse tipo de coisa de chegar conversando com pessoas desconhecidas como se fosse meu amigo íntimo rsrsr!

Bom conto!!!

Abraço!

Andres Carreiro Fumega disse...

Hehehehe! A situação foi engraçada porque o Daniel era tímido para caramba, hehehehe! Eu não esperava a reação! O pior é que ele leu o conto e disse que foi um "mico" daqueles, hehehehe!
Obrigado ao Leandro e ao Ítalo pelos comentários!
Abração!

Aliss0n disse...

poxa, que honra aparecer no tópico :D...

isso ja aconteceu comigo alguma vez hauhauhauaha.... e depois o cara nao sabe onde enfiar a cara hauha verdade, eu agarantio