quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Resenhas Comparadas: Os Anjos na Literatura Nacional (Parte 1).

Olá, amigos.

Como prometido, hoje farei pequenas resenhas sobre dois livros, dos quais gosto muito, escritos por dois brasileiros que resolveram estrear na literatura falando de anjos. E por sinal, quando estavam elaborando suas obras, este tema não estava na moda, coincidindo com a  atual realidade. Produziram duas obras bastante diferente do que vemos por aí sobre o tema. Principalmente porque houve apenas uma mudança alegórica nesta moda, pois a narrativa adolescente em que estudantes vivem seus cotidianos misturados com situações fantásticas só mudou de vampiro para anjo. As obras que fogem deste modismo, que analisarei, serão: O Vale dos Anjos: Torneio dos Céus parte 1 (Leandro Schulai) e A Batalha do Apocalipse (Eduardo Spohr).



O Vale dos Anjos conta a história do grego Dimítris Saloustros, que vivia normalmente seu cotidiano pacato com sua amada esposa (um amor que chega a ser obsessivo) e num belo dia tem a vida ceifada por um acidente de carro. No além túmulo, faz amizade com Obelisco, um anjo guia de enterro, a anjo cupido Anne e será treinado pelo misterioso mestre Ramirez.

A proposta de L. Schulai é construir um livro de fantasia para jovens (não necessariamente ortodoxo nesta posição). Nisto ele é muito bem sucedido, pois o universo criado em O Vale dos Anjos supre exatamente esta demanda. O personagem principal, Dimítris, é um jovem adulto que demonstra durante toda a narrativa sua tenra idade. Sua vontade de saber sobre a nova realidade permeará toda a narrativa junto com sua obsessão de voltar à mulher amada (Mariah). Curiosidade e uma história de amor são elementos que chamam a atenção da juventude leitora, sedenta por este tipo de história. Mas se o leitor acha que o livro só tem estes elementos, está muito enganado. Schulai utiliza-se de suas referências e conhecimentos e torna o desenrolar da história em algo surpreendente. O Torneio dos céus é uma homenagem aos animes japoneses, como Dragon Ball Z, Naruto e Pokemon. É impossível, para mim, não pensar nas músicas destes desenhos animados em alguns momentos da história. Contudo o autor consegue transcender a métrica destes elementos e construir algo pessoal e diferente. Neste sentido (e em outros), O Vale dos Anjos tem personalidade própria.

A linguagem super simples do livro tem um destaque bastante interessante durante a leitura da obra. Contudo, como muitos poderiam pensar, ela não é pobre. O autor soube fazer algo que é muito difícil. Escrever com simplicidade sem ser infantilizado. Não nos sentimos, durante o ato da leitura, subestimados.

Outro ponto a se destacar é a relação que O Vale dos Anjos tem com a literatura infanto-juvenil. Dimítris, Obelisco e Anne são três amigos vivendo uma aventura juntos num além idealizado. É difícil não pensar imediatamente em Harry Potter e Percy Jackson. Contudo, apesar do formato de amizade consagrado pelo escritor americano e a escritora inglesa, há também uma nova visão na narrativa, onde os personagens têm características e personalidades únicas, fugindo completamente de algum possível plágio. A semelhança, portanto, está apenas na trindade de amigos.

Nesta história, apesar de termos anjos, o personagem principal não um deles (ainda não sabemos se um dia ele se tornará um, dependerá do rumo que os fatos tomarão para o personagem) e nem uma virgem atrás de seu primeiro amor sobrenatural. Nisto a originalidade não só do personagem principal, mas do enredo como um todo, confere ao livro um lugar de destaque na nova literatura fantástica nacional, permitindo que os leitores conheçam este novo talento nacional e de quebra novas visões sobre uma temática que já começa a ficar batida no exterior.



O outro lado da moeda, em termos de uma visão sobre os anjos, é o livro magistralmente concebido por Eduardo Spohr, A Batalha do Apocalipse. Nele conhecemos o Anjo renegado Ablon, exilado na Terra. Somos levados por milhares de anos da história da humanidade intercalados aos acontecimentos recentes e tudo isso com o anjo Ablon como protagonista. As trombetas do apocalipse, num futuro próximo, tocarão e uma guerra estará para começar.

Este livro é quase uma enciclopédia de referências culturais modernas. Spohr, com sua narrativa elegante (proposital para construir um épico), nos leva a construções recheadas destes elementos. É impossível, para quem conhece, não perceber a presença do espírito de Robert Howard durante a queda da Babilônia. Durante um ritual que Shamira (outra protagonista) faz com Ablon, Hellblazer (John Constantine) aparece para nos assombrar. O inferno construído por Spohr nos remete a Sandman de Neil Gaiman (Universo DC Comics), fora Star Wars(quimono preto meio cvaleiro Jedi) e Matrix(motocicleta, bomba que queima o céu, etc.). Mas como no caso de Leandro Schulai, o autor consegue transcender suas referências e construir algo único.

Dois paradigmas da literatura comercial foram quebrados em A Batalha do Apocalipse. Um deles é a linguagem. Spohr escreve com certo preciosismo, contudo é impressionante como isto não é negativo. Apesar de remeter a uma linguagem mais épica (às vezes suas referências de livros de Portugal ficam evidentes) a narrativa e o desenvolvimento da história não são afetados. Nisto o autor soube usar muito bem sua habilidade. A linguagem não atrapalha o momento de transição para o universo de A Batalha do Apocalipse. Somos transportados para lá e só nos tocamos das letras quando realmente termina. O segundo paradigma é o tamanho do livro. A última edição teve 600 páginas. A edição independente da Nerd Books tinha 500 (que equivalia a 800 páginas). Todavia cada palavra, cada página, tudo é necessário para contar a história. Não há um desgaste da narrativa e nem momentos perdidos. O grande épico criado no livro necessita de cada momento, de cada letra para a sua formação.

Ablon e Shamira são os protagonistas da história. Ablon tem o papel principal, afinal é a sua história, contudo a feiticeira de En-Dor é uma companheira sempre constante durante sua vida, merecendo o papel de heroína. A visão de Joseph Campbell para a jornada do herói é respeitada (Spohr não esconde seu fascínio pelo especialista em mitos). O grande número de personagens, com seus arquétipos específicos, não se perdem em nenhum momento no contexto. É impressionante a naturalidade da história. Claro que existem pontos que fiquei um pouquinho incomodado, mas nada que mereça alguma menção aqui, pois A Batalha do Apocalipse é um livro que serve de referência aos novos autores de fantasia e aos antigos que desejam conhecer uma obra que transborda qualidade.


Aqui discutimos duas visões nacionais para um mesmo tema e por sinal são visões inéditas mundialmente. Schulai constrói uma história de amor recheada de referências pops, como Harry Potter e Dragon Ball Z e Spohr expõe toda a jornada de um Herói Anjo temperada com o universo Nerd.

Na segunda parte desta resenha comparativa (sine die), analisarei O Senhor da Chuva (André Vianco) e Anjo, a Face do Mal (Nelson Magrini).

Abração!

SCHULAI, Leandro M. O Vale dos Anjos: O Torneio dos Céus (Parte 1). Osasco/SP: Novo Século, 2010.

SPOHR, Eduardo. A Batalha do Apocalipse: Da Queda dos Anjos ao Crepúsculo do Mundo. Rio de Janeiro: Verus/Record, 2010.

6 comentários:

Luiz Teodosio disse...

Gostei da comparação. Tenho estes dois livros aqui, estou lendo oVdA e depois parto para ABdA. Pelo o que já li no livro do Schulai concordo com sua visão.

Tiago disse...

Grandes resenhas, sem falar que o Schulai faz pontas imitando o Lula.

Andres Carreiro Fumega disse...

@Luiz Teodosio
Obrigado pela visita e o comentário.

@Tiago
Não sei se você sabe, mas quem imita o Lula melhor sou eu, rsrsrs!

Abração para os dois!

eduardospohr disse...

Querido Andres,

Incrivel sua resenha!!!

Me manda por mail (eduardo.spohr@gmail.com) os pontos q vc nao gostou. Pra mim eh muito importante saber pra melhorar. Na vida precisamos sempre evoluir :-)

Fiquei FASCINADO por vc ter se ligado nas referencias de Howard e Hellbrazer. Muito bom mesmo.

Grand abraco!!!

MARCINHOW disse...

" Schulai constrói uma história de amor recheada de referências pops, como Harry Potter e Dragon Ball Z e Spohr expõe toda a jornada de um Herói Anjo temperada com o universo Nerd."

Tenho que ler os dois... O Vale dos Anjos já está na minha estante esperando por mim... Já A Batalha do Apocalipse, namoro desde a época da Nerd Books... Pretendo compra-lo em breve!

Vincent Law disse...

Como o Luiz dissera, a sua análise foi bem colocada, Andres.

É disse que gosto, que tentem sempre inovar, pois tudo de início, deve esperar a aceitação e a adaptação do novo paradigma.